Pular para o conteúdo principal

Schadenfreude

Olha, eu não sou nenhum gênio (não que alguém estivesse sugerindo isso), mas tem gente que me surpreende com a pouca inteligência.

Não digo mal informado, não digo mal educado, não digo com problemas cognitivos.

Digo de ter aquele cérebro disposto a fazer conclusões absurdas com coisas muito elementares.
De ter todas as informações ali, na frente, uma do lado da outra... e não conseguir deduzir o óbvio.

--

Fui viajar pro carnaval. De ônibus, porque eu sou rico.

Me distraí da viagem escutando os dois adolescentes que conversavam no banco de trás, e não tive outra opção senão registrar a conversa que estava inspiradora demais.

Eles falaram de carreira:
"Já tem médico demais. Eu quero ser psicólogo. Você aprende a saber quando uma pessoa tá mentindo."
"Jura? Eu fui numa psicóloga uma vez e ela era muito ruim. Eu menti um monte e ela nem percebeu."
"Mas eles ganham bem, né? Eu fiz o cálculo, atendendo quarenta e quatro pessoas eles ganham quinze mil por semana!"
"Nem todos ganham bem. Eu conheço uma que só ganha cinco mil."

Eles falaram de genética:
"Minha mãe por parte de vó é polonesa."
"Mas você não tem olho claro."
"É que eu nasci no Brasil! Ele só fica claro quando vai chover."

Eles falaram de relações internacionais:
"Eu queria ir pra Europa... Ou pra Suíça, porque tá muito fácil ir pra Europa."
"Ah, é. Parece que até Portugal faz parte da Europa agora, né?"

Eles falaram de literatura:
"Você tem cara de nerd, você gosta de ler?"
"Sim, eu li um livro na escola uma vez e gostei."

--


Minha cabeça também dá tela azul de vez em quando.

Uma vez eu esqueci completamente o que significava a palavra árvore. Fiquei repetindo "árvore... árvore..." na minha cabeça e achando super engraçado o som daquilo, sem saber exatamente o que aquilo queria dizer.
Tinha uma árvore bem na minha frente enquanto isso.

Pode ter sido um momento de superação do eu, de meditação intensa, um vazio mental que só os monges mais dedicados conseguem atingir.

Ou foi, como eu gosto de chamar, só um peido cerebral mesmo.

--

Na volta, eu tinha certeza que nada ia superar os futuros vencedores do Nobel da viagem de ida, mas eu subestimei o universo.

Primeira parada do ônibus, a mulher ao meu lado fala:
"Meu cinto de segurança não abre!"
"Como assim?"
"Não abre! Tá estragado! Isso só acontece comigo!"
"Você aperta o botão e ele não solta?"
"Você acha que eu sou burra? NÃO FUNCIONA."

Nisso ela afrouxou o cinto, passou todo o corpo por debaixo dele, ficou em pé no encosto reclinado da cadeira e saiu:
"Absurdo, mesmo!"

Eu olhei para a presilha do cinto, apertei o botão vermelho e... Click! Soltou.
Testei de novo algumas vezes, funcionou certinho.

Mostrar isso pra ela não foi o suficiente pra impedir que, pelo resto da viagem, ela fizesse uma acrobacia pra se arrastar por debaixo do cinto, ficasse em pé no encosto do banco e fizesse escândalo toda vez que fosse ao banheiro.

"Não sei por que essas coisas só acontecem comigo!", ela disse.
Eu acho que tenho uma ideia, amiga.

--

Sabe como tem algumas palavras em algumas línguas que são difíceis de traduzir porque definem sentimentos muito específicos?

Vocês que são poliglotas me respondam: existe algum idioma com uma palavra que defina a sensação de dó, carinho e indignação que a gente tem quando encontra uma pessoa muito muito burra?
Um schadenfreude, uma saudade, um serendipity da estupidez?

Porque se não existir, a gente precisa inventar.
Ou não. Ninguém vai saber usar a palavra direito...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...