Pular para o conteúdo principal

Pânico e prisão

Às vezes eu me dou conta que meus dedos estão presos. Eles sempre estão presos, nenhuma novidade nisso. É pra isso que servem os sapatos, afinal. Mas às vezes eu me dou conta disso, e isso me incomoda. Tento abrir e fechar meus dedos e não consigo. O movimento fica limitado. Eles estão presos e isso é horrível. E, como se fosse questão de vida ou morte, eu preciso sentir que posso abrir e fechar meus dedos do pé. O calçado incomoda. A garganta aperta e eu não consigo pensar em outra coisa. Eu estou preso. As coisas aumentam de proporção, como se eu entrasse em contato com uma realidade maior. Está tudo errado, estamos todos numa gaiola, estamos todos presos e esses calçados são um sinal de tudo isso, e eu preciso me libertar. Aí eu tiro o sapato e tudo bem. -- Não me sinto bem quando chega o inverno. O inverno bravo, aquele mês e pouco em que a temperatura fica perto do zero e o incômodo não é mais só na hora de ir tomar banho. Você não consegue fingir que não está frio, nem que só por um momento. É frio fora de casa, é frio dentro de casa. É frio na parte do pescoço que fica fora do cobertor à noite, é tudo frio, você passa o mês fugindo de morrer de frio. Sentir calor é como sentir-se amado, você não consegue imaginar como é até que o sinta. Ou você tem acesso ao calor ou está distante dele até como conceito. A sensação de frio não incomoda tanto quanto a sensação de que eu nunca vou sentir calor novamente. -- Meus dedos não estão presos para sempre. Eles só estão dentro de um sapato. Eu não vou sentir frio para sempre. É só esperar a Terra percorrer milhões de quilômetros através do espaço e ajustar sua inclinação em relação ao Sol e o calor vai ser insuportável novamente. Os perigos não são reais. A sensação sufocante de uma prisão eterna é. -- Um ataque de pânico é como isso: às vezes nem existe perigo real, mas a sensação é de morte iminente. A respiração encurta, o mundo parece pequeno, as estruturas que sustentam quem se é vão implodindo e caindo umas sobre as outras no peito, como se um prédio desabasse dentro da gente. Na raiz de tudo isso, a sensação de estar preso. -- Quem sofre de pânico em geral acomoda muito mais as necessidades dos outros do que as próprias. Cala-se quando devia falar, cede quando devia teimar e aceita quando devia dizer, gritando que não, de jeito nenhum. Não se reage, o outro é quem tem o poder. O outro é que comanda. O outro está julgando. E uma hora o corpo se dá conta de que pode nunca sair dessa situação. De que a vida não faz nenhum sentido se for sempre presa desse jeito - e viver sem sentido é olhar para a morte. Nessa situação, nada é mais inteligente do que surtar. -- Em geral, para quem sofre de pânico, a sensação de que uma crise pode vir a qualquer momento é pior do que a crise em si. Infelizmente, sem mudar o padrão de abaixar a cabeça e colocar a exigência dos outros antes da própria necessidade, as crises vão continuar necessárias. A solução? Buscar o calor. Tirar os sapatos. Libertar-se. Não é fácil. Ninguém está preso porque quer. Escapar de uma prisão sempre vai ser considerado um crime. Mas para quem esteve preso durante tanto tempo, nenhum julgamento importa mais quando se conhece a liberdade. -- Um dia ainda vou trabalhar descalço. Espero que não esteja frio.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...