Pular para o conteúdo principal

Não me calo

Passei os últimos meses com um caco de vidro enfiado no pé.

Meu hábito de quebrar copos e meu hábito de caminhar descalço se uniram e, não sei bem quando, comecei a sentir alguma coisa estranha no meu pé.

Toda vez que eu pisava, doía.

Eu não entendia o motivo até fazer a matemática: É claro que eu devia ter pisado em algum caquinho bem pequeno e aí continuei a caminhar como se nada tivesse acontecido.

Como a dor começou pequena, eu não dei bola.

--

Passei as semanas seguintes me gabando da minha dor pras pessoas. Alguém comentava "Ai, tô com azia" e eu já respondia na lata:
"E eu, que tô com um caco de vidro há meses no meu pé e nem ao médico fui?".

Eu mesmo me surpreendia com a minha resistência, porque o bicho foi doendo mais e mais e eu não estava nem aí. Ia pra academia, saía correr, andava torto mas usava meu pé doendo como uma medalha de guerra.

Até tentei abrir o pedaço de pele inchada com um estilete pra ver se conseguia tirar o caco, sem sucesso.

Cancela o budismo, gente, porque eu venci a dor humana.
Eu sou muito forte.

--

Hoje minha amiga comentou que precisava pegar um atestado e eu aproveitei a companhia para ir ao médico também. Comentei do caco de vidro na triagem com a enfermeira e já recebi uma pulseirinha dizendo que meu caso tinha alguma urgência, apesar de não muita.

Afinal, não era qualquer coisinha, meu caco de vidro de estimação.

--

Cheguei na sala e repeti pra médica toda a história: provavelmente-pisei-num-caco-de-vidro-e-só-reparei-depois-que-tinha-uma-cicatriz-por-cima-mas-agora-tá-doendo-bastante-afinal-até-heróis-sofrem.

Ela me pediu para tirar o calçado e examinou.
Pediu onde era.

Apertou.
Eu gemi.
Apertou de novo.
Eu urrei.
Apertou de novo.
Eu falei PISA MENOS, DOUTORA.

Ela parou de apertar. Olhou pra mim com cara de "Não acredito que tô gastando meu tempo com isso" e disse:
"Você tem um calo."

Quê?
"Isso é um calo. Você tem um calo no pé, só isso."

As minhas perguntas seguintes foram algo entre "por que isso dói tanto?" e "mas isso mata?".

Enquanto isso, ela procurou no Google um nome de um creminho esfoliante da Granado que, segundo ela, resolve tudo. Aconselhou colocar um protetorzinho na palmilha e... pronto.

--

Bem, tem algumas pessoas que eu preciso me retratar.
Eu não tinha um caco de vidro no meu pé, ok? Desculpa aí.
Como diria a Folha de São Paulo, erramos.

Mas sabe na Bíblia, que tem todo um mistério porque o apóstolo Paulo dizia sofrer de um "espinho na carne", que as pessoas não sabem até hoje o que é?
Aí inventam histórias desde ele ser homossexual até que ele tinha lepra?

Eu acho que ele tinha um calo no pé mesmo.
Aquelas sandalinhas romanas não deviam ser muito confortáveis.

Isso explica porque ele dava tanta lição de moral, também, porque eu fiquei insuportável com essa experiência.

--

Quer dizer, não é porque minha dorzinha veio de uma coisa banal que eu não vou usar ela filosoficamente pra me sentir melhor que os outros.

Todo mundo que eu encontro eu já arranjo um clichê pra meter na conversa.
A pessoa ali, paradinha, e eu já chego puxando assunto:
"Tomando café?"
"Sim", diz a pessoa.

Eu já respondo julgando.
"Bem... cada um sabe onde o calo aperta, não é?"
"Como?"
"Olha, olha! Não pisa no meu calo!"

A pessoa acha estranho.
"Cê não tá falando nada com nada, Flávio"
"Ah, é? Antes de me julgar caminhe um quilômetro com meus pés!", e saio revoltado.

Podem reclamar o quanto quiser.
Não me calo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...