Pular para o conteúdo principal

Prezado Paciente Difícil


Resolvi escrever uma carta pra você porque, bem, nas sessões é você quem fala.

E como fala! Eu gosto de você falar tanto, porque facilita meu trabalho, mas olha… Às vezes eu acho que você poderia me escutar um pouquinho mais.

Aliás, vamos concordar, você tem dois extremos: ou você fala muito e sem parar, durante a sessão toda, sem escutar uma palavra do que eu digo, ou você fica em completo silêncio.

E olha, eu até lido bem com o silêncio, mas me sinto tão na obrigação de te movimentar que começo a fazer show de variedades:

“E como foi a semana?"
“Ok.”
“Você ainda está gripado?”
“Uhun.”
“O que você acha que baixou sua imunidade?”
“Sei lá.”
“Anitta ou Ludmilla?”
“Ahn?”
"Pra quem você tira o chapéu?"

Ok, bem honestamente, eu prefiro quando você fala bastante.

--

Mas mesmo quando você fala bastante, eu tenho minhas dificuldades.

Eu sei que você jura por Deus que não tem resistência nenhuma, mas eu posso provar que tem sim.  Você não sabe, mas nas últimas semanas eu tenho te testado, pra ver se você presta atenção no que eu falo.

Você, todo verborrágico, dizia:
“... e aí eu falava pra ele, sempre falei pra ele, na verdade, que quando ele me procurava só pra transar eu me sentia feito no Grey’s Anatomy e…”

Eu, com a cara séria e profissional, olhava fundo no seu rosto e dizia:
“Estrogonofe”.

Você, nem aí, continuava:
“... e sabe quando tem a cena do acidente de avião, e a Arizona grita sem parar?”

“Jiripoca”, eu observava.

“Exato! Eu me sentia daquele jeito, e tipo, eu gosto da minha perna. Você acha que ele entendeu?”

“Churrasquinho.”

“É, ele nunca me entende! Ele não me ouve, esse é o problema!”

Eu e uma planta ali seríamos a mesma coisa.

Faz parte do trabalho, eu sei. Já aprendi a lidar com isso, mas como o ego dói!
Dói mais que a perna da Arizona Robbins.

--

Paciente difícil, meu querido, eu sei que você está me odiando nesse momento

Eu falei algumas coisas pesadas na última sessão, mas você estava precisando.
Eu sei que você esperava de mim a aprovação total e o carinho infinito, e eu te frustrei, mas você precisa confiar em mim. Antes você me botava num pedestal imenso, e agora acha que eu não faço ideia do que eu tô fazendo, principalmente quando eu piso no seu calo.

Mas, de novo, confia em mim: pode ser dolorido, mas a pisada no calo foi muito calculada e é pra ser terapêutica.

Eu preciso te fazer me odiar de vez em quando, pra dar um gás no seu processo de mudança. Só se trabalha com emoções a partir de emoções, e nem sempre lidar com as emoções é fácil. É por isso que você me paga.

E, como qualquer ser humano, odeio que alguém não goste de mim. Se eu estou te fazendo me odiar, é porque te amo.

Aliás, eu estou até segurando de te cobrar por esses dois meses e meio de sessões atrasadas, primeiro porque eu sei que você pretende me pagar regularmente… Mas agora eu tô preocupado de você ficar puto comigo e não me pagar mais nada.

Só que, mais do que com o pagamento, eu me preocupo com você.

Porque mesmo eu precisando de oito horas de descanso toda vez que eu termino um atendimento contigo, eu acredito muito que você pode melhorar.

Aliás, Paciente, eu quero que você saiba que, por mais que essa carta seja direcionada a você, ela não é só sobre você. Se mil pacientes meus lerem essa carta, pelo menos novecentos vão ter certeza de que ela foi escrita exclusivamente para eles.

--

Paciente, querido, às vezes eu tenho raiva de você. Às vezes eu quero desmarcar a sessão. Tem dias que eu olho para o relógio a cada meia hora, pra ver que só passaram cinco minutos. Tem dias que eu quero te esganar.

E que isso não quer dizer que eu não goste de você. Só quer dizer que, de tanto acreditar que você pode ser mais feliz, eu me enrosquei e criei algumas expectativas também.

Não se preocupe, não vou lhe cobrar por expectativas minhas. Essas coisas eu trabalho com o meu próprio terapeuta.

Ele também tem um paciente muito difícil…

PS: Me desculpe por aquele dia que eu joguei uma almofada na sua cara quando você disse que voltou para o seu ex-namorado que te batia. Foi reflexo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...