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Mortos de pressa


Todos desejamos morrer.

A morte vem de fábrica no HD do ser humano. Nosso sistema operacional é todo planejado em função dela: sentimos fome e comemos para não morrer, transamos pra que a espécie não morra e andamos em duas pernas porque nossos antepassados distantes que faziam o mesmo morriam menos.

Ao mesmo tempo que não queremos morrer, sabemos por padrão que a morte é uma etapa essencial da vida. Uma vida bem vivida, ou um self atualizado, só existe por completo tendo a morte como elemento final.

Ninguém quer morrer logo, mas existe o desejo inconsciente de que a morte coroe a nossa experiência. A morte é um desejo do qual a gente foge por saber que é inevitável encontrar.

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A morte é o único impulso humano que vem por delivery.  Não precisamos buscá-la: ao seu tempo, ela nos encontra.
E é justamente ter a certeza de que seremos encontrados pela morte que nos faz andar na direção oposta.

É como o ciclo dos dias: a gente sabe que o sol vai se pôr, então aproveita bem a luz do dia. O dia pode parecer curto, mas traz consigo a paz de não ser interminável.

Ao menos esse era o ciclo, quando a vida era um processo longo e monótono, com menos entretenimento e com meia dúzia de parentes morrendo em casa a cada década.

Tínhamos paciência com a morte pela naturalidade com que ela poderia vir a qualquer momento.

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Não mais. Temos medicina o suficiente pra adiar nossa morte por mais e mais tempo, e o processo em si acontece hermético, da cama de um hospital diretamente pra um caixão coberto de flores.

Por outro lado, nossos desejos estão sendo atendidos muito mais prontamente. A informação é instantânea, o entretenimento está ao alcance dos dedos, a pizza chega em trinta minutos ou não pagamos pela entrega.

Ficamos viciados em ter nossos desejos atendido prontamente.

E é por isso que tanta gente tem se suicidado.

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No momento em que a vida vira um jogo neurótico em busca de satisfações imediatas, deixamos de saber como lidar com uma angústia não atendida.

Todo comichão deve ser cutucado, toda fome deve ser satisfeita, todo buraco precisa ser estufado o mais rápido possível, porque não sabemos mais lidar com a ausência de uma solução imediata.

Nada mais é a longo prazo.  Nem a morte, que costumava ser um investimento feito ao longo da vida.

É aí que o suicídio se torna apetitoso.

Em um momento de crise, em que todos os outros prazeres imediatos estão suspensos, a morte se transforma em um prêmio, a possibilidade da satisfação imediata, a resolução definitiva de uma grande angústia.

Que outro produto oferece isso, se não o suicídio?

As causas dos transtornos mentais são muitas, e nem todos os sofrimentos vem da pressa, mas certamente nos mataríamos muito menos se soubéssemos esperar um pouco mais.

Em algum momento, a satisfação nos alcança - e a morte também.

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