Pular para o conteúdo principal

Bota-fora

Engraçado como às vezes a gente encontra exatamente aquilo que estava procurando.

Quando eu tinha uns vinte anos, eu estava (como de costume) despedaçado por causa de um fim de namoro.

Eu que tinha posto fim na desgraça toda. Ele tinha desmarcado de ir no show do Roberto Carlos comigo porque tinha que lavar roupa, e a gente já não se via há três semanas.

Entendi o que estava desenhado, me emputeci e acabei tudo com um depoimento putíssimo no Orkut. Muita maturidade, como podem ver.

Mal engoli o choro desse relacionamento e já lancei pro universo: "Eu quero que a próxima pessoa no meu caminho seja uma pessoa que não vá embora".

--

A memória me apareceu enquanto uma paciente me contava sobre um momento muito complicado no seu próprio relacionamento difícil. Ela estava no meio de uma frase particularmente triste quando, sem conseguir segurar, eu soltei uma gargalhada.

Juro por Deus que não consegui conter.
Óbvio que eu não estava rindo da cara dela. Sessão terminada, eu expliquei.

Eu tinha lembrado justamente do que aconteceu no relacionamento com a pessoa-que-não-vai-embora que eu tinha pedido ao universo.

O relacionamento era complicado e, naquele dia específico, não foi diferente.

Há alguns dias eu tentava contato com ele, sem resposta. Naquela noite, uma hora da manhã, tocou a campainha do meu apartamento. Meu então namorado estava bêbado na porta, todo arrumadinho: Roupa de marca, corrente no pescoço, cabelo impecável e um par de botas daquelas amarelas que custam trezentos reais.

Eu tenho muitos defeitos e um deles é gostar de homem coxinha.

Enfim, ele tinha ido a uma balada, ficado bêbado, sentido saudade de mim e resolvido aparecer de surpresa na minha casa.

Ele contou aquilo como um grande ato romântico, tipo "podia ter ficado com qualquer pessoa, mas escolhi você!".

E eu caí na conversa.

--

Pelo menos por um tempo.
Já estávamos aos beijos no sofá quando me caiu a realidade na cabeça.

"Peraí, você ficou dois dias sem atender o telefone, foi pra balada, não conseguiu ninguém pra ficar e apareceu aqui pra me acordar de madrugada como se fosse um presente pra mim?"

Todo fidumégua fica ofendidíssimo quando é responsabilizado pela sua fidumeguice. Ele começou a brigar comigo na hora:

"Você só vê as coisas pelo lado ruim! Não tem como te agradar. Eu nem devia ter vindo aqui, eu vou embora. Vou voltar pra festa, que lá é melhor!"

Entrei em pânico.
Eu não queria que ele fosse embora, eu queria que ele ficasse! Eu ia me sentir péssimo se ficasse em casa sozinho enquanto sabia que a pessoa que eu amava estava numa festa.

A maior arma de uma pessoa abusiva é sempre a culpa na pessoa abusada.

--

Eu não ia deixar ele ir embora.
Agarrei a bota dele do chão e corri pro quarto. Deitei na cama, ainda abraçado na bota, e dei o recado:

"Quer ir embora? Vai. Mas vai descalço."

A maturidade sempre foi minha marca registrada. Mas funcionou.
Ele reclamou por uns dez minutos, desistiu, me abraçou na cama e dormiu.

Conseguiu exatamente o que queria: ficar comigo mesmo depois de deslizar feio e ainda me deixar culpado por ter ousado duvidar das suas intenções.

--

Ter tido uns relacionamentos péssimos parece ter sido melhor do que a faculdade de psicologia pra me ajudar a entender o relacionamento dos outros.

Hoje eu entendo que não adianta falar "Se isso não te faz bem, larga" pra alguém que está muito profundamente entrelaçado sentimentalmente com outra pessoa.

Cada relacionamento tem uma gigantesca quantidade de motivos inconscientes que o mantém.

Até desmontar cada culpa, entender cada apego, escutar cada restinho de carinho que exista ali... Não adianta aconselhar o óbvio.

Porque entender o óbvio é fácil. Sentí-lo, nem tanto.

--

Ainda assim, quando a gente precisa fazer esforço mais pra que alguém fique ao nosso lado, é porque a pessoa já partiu.

Em algum momento é preciso largar a bota.

Não basta que a pessoa fique. É preciso que ela queira ficar.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...