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Gabriel

Gabriel.
Eu lembro perfeitamente do seu nome, apesar do rosto não ser mais tão claro na minha cabeça. Na minha imaginação, por alguma semiótica inconsciente, ele é igualzinho ao Do Contra da Turma da Mônica.

Eu não tinha muitos amigos na época, mas não me importava muito com isso. O lúdico me servia perfeitamente para passar o intervalo da escola, sem ligar para as meninas que não me queriam por perto nem para os meninos que tiravam sarro de mim.

Então eu brincava sozinho. Nesse dia, eu pulava amarelinha.

A escola era um prédio pequeno com uma faixa de calçada ao redor em que os alunos brincavam. Enquanto eu brincava, os meninos da minha sala apostavam corrida ao redor do prédio.

Joguei a pedrinha.

Pulinho com um pé. Pulinho com os dois pés. Pulinho com um pé, de novo.
Mais um pulo... e minha memória apagou.

--

Acordei não sei quanto tempo depois, certamente não tempo suficiente pra alguém se dar conta que uma criança estava desmaiada no chão.

O Gabriel, que eu nunca esqueci o nome, que estava apostando corrida com os meninos por ali, achou divertido me dar um empurrão e continuar correndo.

Caí de cabeça na quina de um banco de concreto.
Criança cai o tempo todo, eu sei, mas essa foi uma cabeçada bem menos boba do que parece.

Consegui pedir ajuda e alguém me levou pro hospital. Antes de ir, uma professora perguntou quem tinha me empurrado. Respondi.

"Foi sem querer", ele justificou quando perguntaram.
Ele não sofreu repreensão nenhuma.

"Seu filho é forte", disse a enfermeira para a minha mãe. "Esperou você chegar pra começar a chorar."

--

Até hoje tenho uma cicatriz na testa e um coágulo atrás do olho direito que não me deixam esquecer essa história.

Só meus pais sabem quanto dinheiro gastaram me levando de médico em médico para ver qual era a desse bendito coágulo.

Às vezes eu ficava muito tonto, às vezes eu tinha dores de cabeça terríveis. O negócio podia resolver se mexer a qualquer momento e fazer um estrago difícil de prever.

Mas isso não me incomodava tanto quanto a culpa que eu sentia de meus pais precisarem abrir mão dos seus trabalhos para viajar até um especialista. Eu era culpado por aquilo. Eu não devia ter caído. Eu devia ter sido amigo dos meninos.

Eu não devia ter deixado ninguém me empurrar. Com uns dez anos de idade, eu tinha um contâiner de vergonha e planos bem claros de suicídio.

Até hoje me aperta o peito quando vejo uma família exausta acampando com um filho na porta de um hospital.
Pobres pais. Pobre criança.


--

Eu realmente acho que o Gabriel não fez o que fez por mal.
Ele só não se importava comigo. Ele só me empurrou porque deu na telha. Ele só achou que seria engraçado me ver caindo.

Ele sabia que nada de ruim iria acontecer com ele.

Se eu sinto calafrios a cada vez que vejo um carro com o adesivo do candidato que diz que menino afeminado precisa apanhar pra aprender a ser homem, não é porque eu sinto que a pessoa dentro do carro seja um monstro.

É porque eu sei que a qualquer momento pode aparecer um Gabriel para me empurrar por trás, só de brincadeirinha. Sem maldade. Só de zoeira. Porque não quis se importar com as consequências.

Porque não quis se importar com o que pode acontecer comigo depois.

--

Eu não brinco mais sozinho.

Somos vários - cada um com suas cicatrizes - cansados de tentar não atrapalhar ninguém. Pedindo, por favor, que parem de nos empurrar.

Só isso.

Nosso pedido irrita muito os tantos Gabriéis insistem em fazer birra.
Eles só querem fazer o que tem vontade. Eles querem empurrar sem ser punidos. Eles querem mandar sem se importar com quem está do outro lado.

Nós, que já pulamos tanta amarelinha sozinhos, que já levamos tanto empurrão, estamos fazendo o possível para impedir.

Espero que a gente consiga.

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