Pular para o conteúdo principal

Original



Estava passando pelo centro e parei numa lojinha popular:
"Moça, você tem camiseta básica?"

Ela foi bem simpática:
"Olha, eu tenho essas que estão na promoção, 14,90 cada."


Me mostrou uma arara com várias camisetas cheias de desenhos e palavras na frente. Incrível como roupa barata sempre tem desenho.

"Mais básica que isso, você tem?", eu pergunto.
"Essa é bem basiquinha, olha!", e ela me alcança uma camiseta laranja com o escrito "FLORIDA 1969 - Extreme Sports forever" na frente.

"É que eu gosto mais discretinha, entende?"

Ela me mostra outra, dessa vez preta. Tá escrito "POWER TO THE PEOPLE - 1978- Fighting Hard For Believing Surfboarding - NEW YORK", no meio do desenho de uma onda.

"Tem essa outra aqui também", e me mostra uma azul marinho escrito "JUICY BITCH - Try me if you can - Tokyo Japan New York France Philippines Fashion Forever Dreams Company - The Fever is Inside Us".

Passei mais tempo lendo as camisetas do que qualquer livro que eu tenha comprado esse ano.
"Toda lisa você não tem?"

"Tenho sim", diz a vendedora, e me mostra uma igualzinha às anteriores, mas sem nada escrito. "Essa tá 34,99".

Porra.
"Tá bem... E calça de academia, você tem?"

Ela me mostra uma calça com o símbolo da Nike virado pro lado errado e com NIEK escrito bem grandão do lado.

Se a calça fosse lisa, eu teria comprado na hora.

Não é possível que seja mais barato fazer uma coisa cheia de desenho e marcas falsas do que uma roupa simplezinha, sem nada.

Desisto.

--

No ensino médio, todos os endinheiradinhos do colégio usavam tênis da Adidas e eu morria de inveja.
Eu tinha inveja de muita coisa, até dos que tinham dinheiro pra comprar pastel na cantina todos os dias, mas o pastel eu conseguia ter às vezes.
O Adidas não.

Tanto mentalizei o tênis que ganhei um tênis da Adidas - falsificado.
A intenção foi das melhores, mas o presente tinha um problema sério: qualquer um que batesse o olho ia contar quatro faixinhas na lateral e não as três tradicionais da marca.

Falsificação visível de longe, maior vergonha. Usei muito o tênis, mas só pra ficar em casa. Morria de culpa por ter vergonha de uma coisa tão boba.

Hoje eu improvisaria umas listrinhas a mais no lado do tênis, pra deixar bem claro que ele é tão fake quanto a minha autoestima.

Aprendizados, né?

--

Mas a melhor história de coisa falsificada que eu tenho foi um relógio que eu vi pra vender quando ainda era criança.

Grandão, brilhava de longe no mostruário do 1,99. O visor ostentava, bem grandão, a nome da marca:
ABIBAS.

A falsificação superou o original.
Até hoje me arrependo de não ter comprado.

Se alguém encontrar pra vender, compra pra mim que eu mando o dinheiro.
Só confira as notas, por favor. Podem ser falsificadas.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...