Pular para o conteúdo principal

Não se empolgue

Esse ano eu vou perder dez quilos.
É só espremer mais meia horinha de academia por dia... E também mudar minha dieta, porque esse ano eu vou comer certinho.

E vou cuidar mais da minha pele. E meditar, só dez minutos por dia, não custa nada.
Também vou fazer trabalho voluntário. E ler! Vou ler meia hora por dia e ver menos TV.

Além disso, vou poupar 20% do meu salário todo mês.

Até o Carnaval, claro. Depois eu chuto o balde de novo e deixo minhas metas para o ano que vem.

--

Que ótimo que as férias reabasteceram as suas energias e você está pronto para fazer uma revolução na sua vida.

Com a virada do ano, é bem possível que você esteja se sentindo invencível, e eu acho isso lindo, mas posso dizer? É coisa demais ao mesmo tempo. Você não vai dar conta de tudo isso - e tudo bem.

Antes de me acusar de estar torcendo contra seus planos, me deixe explicar porque é melhor você não esbanjar toda a sua empolgação de uma só vez.

--

Um colega fisioterapeuta me ensinou a seguinte regra sobre boa postura: "Faça a postura mais alongada e forçada que puder, depois relaxe dez por cento".

Assim, a postura ficava bonita e a pessoa não ficava desconfortável, parecendo um manequim de loja. Outro benefício: é muito mais fácil se manter com a figura harmônica por mais tempo com um pouquinho de relaxamento do que com uma rigidez total.

Gosto de aplicar a mesma regra a novos hábitos: Mire na vida perfeita - e então relaxe um pouquinho.

--

Não quero jogar água fria em ninguém (a não ser em mim mesmo, que tá calor pra cacete), mas pode ser que esse entusiasmo que sentimos quando começamos a buscar uma meta faça mais mal do que bem.

Quanto maior a expectativa, mais dura a frustração.

Tem até nome pra quando esse ciclo de empolgação e queda é extremo e patológico - Transtorno Bipolar (que é muito diferente da ideia de pessoa triste num momento e feliz no outro que as pessoas costumam ter).

"Devagar e sempre" não é um ditado popular à toa. Gastar menos energia na largada garante mais fôlego mais adiante na corrida.

Por isso, tente pegar leve com as metas de começo do ano. Vá com calma. Vá com um pouquinho de desconfiança. Vá um pouco de cada vez. Vá sem a certeza de que vai chegar.

No final do ano você vai ver como conseguiu ir mais longe.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...