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Antidepressivos são ótimos

Eu tenho uma fantasia mais ou menos assim:

Estou fazendo um atendimento e subitamente parede do meu consultório se abre, revelando uma masmorra. Eu pego um instrumento de tortura qualquer (um chicote / um fio elétrico desencapado / um projeto de lei do PSL) e começo a infligir dor no meu paciente.

"Toma essa!", eu falaria, espancando com o projeto de lei, "e fala pra mim o que você aprendeu hoje!"

Meu paciente, em pânico, diria aquilo que ele sabe que vai me satisfazer:
"Não existe mérito nenhum em largar o antidepressivo".

Eu repetiria a pancada e gritaria:
"Não ouvi, fala mais alto!"

E o paciente, chorando:
"NÃO EXISTE MÉRITO NENHUM EM ABANDONAR O ANTIDEPRESSIVO!"

O prazer seria tanto que eu acho que precisaria de uma cueca nova.

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Infelizmente, barreiras cruéis como o código de ética da profissão e os altos custos envolvidos na construção de uma masmorra me impedem de levar minha fantasia a cabo.

Ainda assim, me sinto na necessidade de pregar a santa palavra dos remédios psiquiátricos. Senhoras e senhores, antidepressivos são maravilhosos.

E, se você tem depressão, sua vida muito provavelmente será melhor com eles do que sem.

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É muito difícil aceitar que você precisa de uma medicação para se sentir bem.

Eu mesmo, que sou profissional da área e credenciado à Rede Nacional de Gente Meio Ruim da Cabeça, precisei de meses de terapia para aceitar que minha dificuldade de levantar da cama todos os dias e minha incapacidade de sentir ânimo todos os dias fossem suficientes para me fazer recorrer a uma ajuda química para me sentir melhor.

Até existe uma relativa abertura quando o assunto é começar a tomar o antidepressivo num momento de crise, mas na hora de fazer uma manutenção do tratamento e continuar tomando, a resistência é muito maior.

É quando, depois de meses de evolução da terapia, o paciente me aparece, em frangalhos, dizendo que está se sentindo muito pior do que antes e que não entende o porquê.

Depois de uma longa conversa, timidamente, ele revela "Ah, eu não renovei a receita do remédio, queria ver se conseguia ficar sem".

Nessa hora que eu começo a valorizar a utilidade da masmorra.

Parece bobo mas é química pura. Um neurotransmissorzinho que decide entrar em férias consegue tirar toda a nossa capacidade mental do eixo.

Só que quando é o fígado ou o pâncreas que precisa de uma ajudinha, a gente não vê problema nenhum em tomar remédio. Chega a ser irresponsável não tomar o remédio da pressão.

Ninguém se sente um fracasso se precisar de um Estomazil.  Agora, precisar de um escitalopram... O papo muda.

É como se fosse uma vergonha terrível "não dar conta da vida" sem um remédio.

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"Eu não quero viver dopado", me dizem essas pessoas.

E eu tento explicar: A pessoa que está fora do seu funcionamento normal não é você enquanto está com seus neurotransmissores regulados através de uma substância química. Se você tem depressão ou outro distúrbio mental, essa pessoa é o você autêntico.

A pessoa que está fora de si é aquela fortemente por um desequilíbrio químico pelo qual ela não tem culpa, incapaz de ter sentimentos e com impulsos frequentes de suicídio.

Você toma o medicamento para ser quem você realmente é, e não o contrário.

Pra viver dopado é preciso bem mais esforço do que isso.

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Claro que é possível estar com uma medicação errada que faça mal, ou que alguma medicação mais pesada possa ser abandonada num momento de crise.

Mas essas são decisões delicadas e que precisam ser feitas com planejamento. Um profissional pode te acompanhar na hora de lidar com isso - até para talvez tentar te convencer, sem te levar pra masmorra, de que a melhor decisão seja manter o medicamento.

Se o time está funcionando, por que não manter a escalação?

Não tem vergonha nenhuma o Popeye precisar do espinafre para ganhar sua força.

O importante é ele dar porrada.

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