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Atento e forte e sem tempo


Estou saindo de férias e fui invadido por uma tristeza grudona e chata. 

Antes que você responda "Tadinho, vai sair de férias! Como vai aguentar?", listo os motivos de hoje para me sentir culpado: não vou estar disponível pros meus pacientes (que eu estou subestimando profundamente se acho que não vão aguentar uma semana sem mim); meu gato vai morrer de tédio sendo visitado apenas uma vez por dia pela vizinha (quando ele mesmo passa meia horinha perto de mim por dia antes de enjoar e ir tirar as sonequinhas dele); eu vou gastar dinheiro (essa coisa que foi feita pra gastar mas eu não aceito).

Essa melancolia não estava na minha agenda. O meu dia pré-viagem ia ser cheio de atendimentos e atividades, a emoção planejada era a de corre-que-não-vai-dar-tempo. Não combinei com os russos: as agendas foram caindo por terra, as notícias foram de cavalos soltos no meio do furacão, uma chuvinha começou a cair e... o dia abriu uma brecha pra melancolia entrar.

Bem vinda, melancolia. Fica à vontade, só tenta não entrar na minha mala que já tá cheia.


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Na última viagenzinha que fiz, o ônibus demorou bastante pra sair e o motorista compensou o atraso com o pé no acelerador. Fui sacolejando na minha poltrona semi-leito (sou rico) e tive tempo o suficiente pra lembrar que sim, a morte poderia vir de supetão, bastando um único movimento em falso do motorista de mais de setenta anos que dirigia apressado madrugada adentro.

Talvez a noite de viagem terminasse com uma chegada ao meu destino de fim de semana, talvez terminasse com meu destino final. A gente é maluco de confiar a vida numa caixa de metal que se move depressa pela estrada guiada por um desconhecido, né? Mas confia porque precisa. Confia porque a vida precisa urgentemente continuar.

Ônibus são ótimos lugares pra ser dramático.

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Depois que a gente descobre que as coisas podem dar errado, já era. Foi-se a invencibilidade da juventude - sorte de quem teve essa sensação na juventude, porque tem gente que nem isso! - e uma ansiedade muito da madura começa a se instalar. 

Não acho que essa ansiedade seria aliviada pela inconsciência dos perigos.

É preciso estar atento e forte, e isso só acontece quando a gente sabe das rasteiras que a vida pode nos passar de supetão. 

O que não é saudável é estacionar nisso. 

É preciso abrir espaço na racionalidade pra achar que as surpresas também podem ser positivas, mesmo quando a gente não espera mais muita coisa da vida. 

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O Stan Lee criou seu primeiro super-herói aos 39 anos. A Vera Wang desenhou seu primeiro vestido aos 40. O Datena deu sua primeira cadeirada no Pablo Marçal aos 67!

Sempre há tempo de encontrar algum sentido novo pra vida, se a gente tentar reservar uma energia pra isso também e não só pra choramingar as agruras da estrada. A consciência da finitude não precisa nos impedir de investir num sonho bobo, de querer uma atividade diferente, de arranjar uma sarna pra se coçar. 

É preciso estar atento e forte mas também sem tempo de temer a morte, porque se sobrar muito tempo pra isso... A cabeça vira um velório. 

E eu não quero me dedicar a velórios hoje. Tô indo viajar. 

(PS: Já pensou se meu avião cai? Ia ser chiquérrimo terminar num texto premonitório assim)

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