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Repetindo repetindo repetindo



Uma coisa bacana de envelhecer - tem que ter alguma - é que você vai desenvolvendo um apreço sobre como as coisas se repetem.

Ontem, recebendo amigos em casa, eu sorri ao perceber a mesmice dos nossos assuntos: os mesmos comentários de cansaço com o trabalho, os mesmos sonhos de um pouco mais de conforto na vida, a mesma vontade - essa talvez um pouco maior ano a ano - de perder peso…

Em tempos mais adolescentes isso me deixaria inquieto, certo de que era hora pra explorar novos ares, mas não dessa vez. A vida já tem tantas mudanças, de um jeito tão fora do nosso controle, que me parece mais saudável enxergar o repetitivo como sagrado.

As missas, os casamentos, as formaturas são sempre iguais e quase sempre muito bonitos. Não é isso que faz os rituais tão poderosos, saber que eles sempre acontecem da mesma forma?


A gente se engana muito quando pensa que o que nos torna especiais para os outros são os grandes gestos. Quantos grandes gestos cabem numa vida? Muito poucos. Quantas miudezas bonitas podem acontecer? Infinitas.


As pessoas se tornam especiais porque fazem questão de se repetir nas nossas vidas.

São as banalidades que fazem falta quando alguém vai embora da nossa vida - as saudades mais pesadas são do pequeno e repetitivo. A lembrança que mais pega é quando você se pega dobrando um guardanapo do jeitinho que a pessoa costumava fazer, ou quando você percebe que, pela primeira vez, aquela piada velha não foi contada na hora da refeição.


Não pensem que eu perdi o gosto pela novidade, mas até a novidade fica um pouco velha com o tempo. A gente só sabe que o novo sempre vem porque ele é recorrente em vir.

O novo sempre vem, mas vem por uma estrada velha, e é gostoso sentar à beira dela pra ver o inevitável desfile da novidade.


Com o tempo, a empolgação pelo novo se transforma numa nostalgia em tempo real pelo que é vivido.

Em algum momento o “já chegou o ano novo!” vira um “já chegou o ano novo??” recebido com mais surpresa do que esperança, mas a esperança segue lá - não renovada, mas persistente, como um velhinho que insiste em chegar vivo a mais um Natal.


Desejo que muita coisa se renove no próximo ano, mas não tudo.

Que aquilo que é confortável, banal e sagrado continue exatamente como está, e que a gente saiba recepcionar o novo com o carinho que o tempo - e só o tempo - sabe ensinar a ter.

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