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Zombeteiro



Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida.

Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso. 

É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido. 

Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona. 

O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada.


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A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre. 

É o verdadeiro paraíso. 

Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos".

Sou um devoto do dormir e acredito que a morte seja a Soneca Suprema que vai nos redimir a todos.

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Isso e as respostas religiosas não tem me satisfeito muito. Ir pro céu e ouvir harpa o dia inteiro? Um tédio.

Um inferno de fogo, com o gás nesse preço? Impraticável.

A única saída espiritualista que me parece agradável está em uma brechinha que encontrei. Vou explicar: Os espíritas acreditam que a vida segue pra sempre e a nossa missão é evoluir eternamente e tentar melhorar como pessoas.


Deus me livre. 

O que me atrai é o seguinte: pra eles, se você não topa melhorar, você vira um espírito errante, ou zombeteiro, e fica perambulando pela terra fazendo mal pras pessoas que te incomodaram na vida.

Bingo! Isso que eu quero: aterrorizar o vizinho que ouve música alta no domingo à tarde. Quero garantir que ele pise no molhado toda vez que ele estiver só de meias.

Virar fantasma e encher o saco de quem eu não gosto por toda a eternidade. De quebra, atravessar parede e ver as pessoas trocando de roupa.

Que céu, amigos, que céu!

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Isso de que uma vida sem sentido gera sofrimento é desculpa de coach pra vender curso. 

O que gera sofrimento é ficar preso num condicionamento cafonérrimo de que o nosso trabalho, além de pagar as contas, precisa ter alguma expressão superior.

Quer saber alguém que morreu feliz? O CEO de plano de saúde que o Luigi Mangione matou. Passou a vida fazendo o trabalho mais escroto do mundo, foi lindamente remunerado e recebeu como carma uma morte rápida, sem tempo sofrendo no hospital e às 07h30 da manhã, antes do expediente começar. Brilhante.


A gente quer é poder passar os dias fazendo alguma coisa que não seja totalmente emburrecedora e que ajude a passar o tempo. Se o Estado Islâmico abrisse vagas de home office com um bom vale-mercado, eu enviaria meu currículo.

Melhorar o mundo, com o gás nesse preço? Impraticável. 

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