Pular para o conteúdo principal

Fimose facial

 


Depois de quase dois meses, agora que começo a ver os resultados de uma cirurgia plástica que fiz na cara. Não é a minha primeira, fiz uma baciada de procedimentos aos 30 antes desse agora aos 35. 

Minha ideia é reformar alguma coisa de cinco em cinco anos até me transformar completamente num pneu remold.


Até agora, nem foi tanto por vaidade. Eu nasci com uma quantidade excessiva de pele no rosto. Não precisava tanto. Veio com sobra pra fazer uma cortina e um tapete.

Amigos me perguntavam se eu estava com sono. Professores me perguntavam se eu estava dormindo. Pessoas na rua perguntavam quem foi que perdeu um sharpei. 


De tanto forçar a testa pra levantar as pálpebras e mostrar os olhos, fiz uma ruga de fora a fora que meus amigos carinhosamente apelidaram de "bocetão". 

Foi um luto geral quando, num primeiro procedimento, fiz um preenchimento nele como uma prefeitura faz uma operação tapa-buraco.


Depois, fiz uma cirurgia chamada castanhares, em que eles tiram um bife de cima das suas sobrancelhas e costuram o buraco, te dando um olhar que pode ser descrito como "jovial", "aberto" e "de quem viu um fantasma". 

Esse deu super errado e até hoje eu tenho cicatrizes bem feias em cima das sobrancelhas, mas o olho abriu. Um pouquinho.


Tanto que, logo depois, me motivei a fazer a cirurgia LASIK para parar de usar óculos. Que experiência! Em cinco minutos você resolve um incômodo de uma vida inteira, e em menos de meia hora eu já estava em casa usando o computador contra as ordens médicas.

Sem os óculos com lentes grossas de muitos graus de miopia e astigmatismo, o olho abriu mais um pouco.


Mas ainda ficava um olhar cansado. Uma coisa meio Clint Eastwood, se ele tivesse sido picado por abelhas.

Por isso, esse ano resolvi fazer uma blefaroplastia, uma outra cirurgia em que o pedaço de bife é removido diretamente das pálpebras. 


Para garantir que dessa vez o resultado não fosse ruim, investi em um bom profissional e operei com o melhor dentista de Ciudad del Leste.

No YouTube, todo mundo que operou essa cirurgia já sai do centro cirúrgico lindo e com cara de descansado. No máximo, com uma semana de inchaço. Eu fiquei roxo e inchado por um mês, passando protetor solar com cor no roxo como quem passa Errorex numa bola de basquete pra ela não ser percebida em cima de uma folha A4.


Pois bem, agora finalmente estou com os olhos abertos. Devo dizer, a experiência é horrível.

Primeiro, a natureza tinha me dado uma proteção formidável pras coisas não pegarem no olho e eu ignorei.

Tá cozinhando? A gota de olho vai direto no olho.

Tá tentando quebrar alguma coisa? Algum pedaço vai no olho, invariavelmente. 

Galho de árvore na rua? Que lindos olhos você tem.

O olho é o maior ímã de detritos do universo, impressionante.


Segundo, é um pouco estranho olhar no espelho e não ver o cenho baixo, guarani, da minha avó. Parece que eu abandonei ela um pouquinho. 


Terceiro, as pessoas estão reagindo esquisito.

Meu pai levou um susto enquanto almoçava comigo. Perguntei o motivo e ele disse "olhei pro lado e vi esse olhão arregalado, não tô acostumado!".

Uma paciente perguntou se eu estava usando lente de contato. Várias pessoas falaram que nunca tinham visto a cor dos meus olho antes (é vermelha, eu tenho rinite).


Então, por mais satisfeito que eu esteja com o resultado da operação, ainda estou tentando me acostumar. Faço bastante esforço pra não olhar pra todo mundo com o olho esbugalhado, tipo doido, esquecendo que ninguém parece mais doido do que quem tenta não parecer maluco.


Mas, querendo ou não, lá vou eu pro mundão. Agora de olhos abertos e enxergando tudo.

Por sorte, continuo sem prestar atenção.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...

Repetindo repetindo repetindo

Uma coisa bacana de envelhecer - tem que ter alguma - é que você vai desenvolvendo um apreço sobre como as coisas se repetem. Ontem, recebendo amigos em casa, eu sorri ao perceber a mesmice dos nossos assuntos: os mesmos comentários de cansaço com o trabalho, os mesmos sonhos de um pouco mais de conforto na vida, a mesma vontade - essa talvez um pouco maior ano a ano - de perder peso… Em tempos mais adolescentes isso me deixaria inquieto, certo de que era hora pra explorar novos ares, mas não dessa vez. A vida já tem tantas mudanças, de um jeito tão fora do nosso controle, que me parece mais saudável enxergar o repetitivo como sagrado. As missas, os casamentos, as formaturas são sempre iguais e quase sempre muito bonitos. Não é isso que faz os rituais tão poderosos, saber que eles sempre acontecem da mesma forma? – A gente se engana muito quando pensa que o que nos torna especiais para os outros são os grandes gestos. Quantos grandes gestos cabem numa vida? Muito poucos. Quantas miudez...