Tô até com vergonha de começar o rascunho de mais um texto. Quando eu abri o aplicativo de notas em que eu escrevo, vi pelo menos uns quinze abortos recentes de ideias que eu tive, cheguei a rascunhar e não terminei.
Talvez isso não seja um problema.
Não existe muita vantagem em fazer as coisas até o fim. É quando as coisas terminam que os problemas começam.
Se eu pensei, elaborei, cheguei no ponto que eu queria e ninguém ficar sabendo, isso não tá bom? É a satisfação do meu sonho gordinho de mastigar sem engolir, sentir o sabor e nunca engordar.
Eu nunca tive vergonha de *não* publicar um texto.
Mas de me expor? Quantos pensamentos de "não devia ter feito isso", "fulano deve ter achado isso ridículo", "que piada mais batida...".
Dando corda pra isso que fiquei com a gaveta cheia de rascunhos.
Me poupei de uns dramas mas... Uma masturbação sem gozo até te poupa de limpar a sujeira depois, mas vale de quê?
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Eu queria matar o Luís Fernando Veríssimo. Sorte dele de ter morrido hoje (azar o nosso).
Nunca vi alguém tão bom em manejar expectativas.
O homem nasce de um dos maiores escritores brasileiros, certamente passa a infância toda ouvindo o quanto o pai é um gênio e, apaixonado pelo jazz e tocando saxofone lindamente, decide ser... Escritor também.
Imagino a pressão pra que ele escrevesse um épico, como os do pai. Talvez completar a obra contando as histórias de Ana Água, Ana Fogo e Ana Ar.
Mas não, ele foi escrever humor. Humor, essa coisa que todo mundo aprecia mas ninguém respeita.
E fez isso como ninguém.
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Tem uma crônica dele que narra a história de um publicitário que consegue pensar no melhor slogan de todos os tempos: uma propaganda do Chivas Regal arrematada pela frase "o Chivas Regal dos uísques".
Chupa, Don Draper.
Depois disso, o publicitário nunca mais consegue fazer nada na vida. Apenas olha para a parede, perdido e feliz, num nirvana gerado pelo brilhantismo que jamais alcançaria novamente.
Nesse ponto, imagino que o Luis Fernando deve ter passado por algumas crises parecidas. Numa semana, ele escreve uma crônica genial - e que ele sabia que era genial, os gênios sabem quando são - e na outra, imagino eu, podia bater um branco na hora de entregar a crônica de domingo para o jornal.
Será que ele pensava "cacete, mas eu sou o Veríssimo, vou mesmo mandar uma coisa mais ou menos pra publicar no meu nome?"
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A chegada do jornal de domingo era um evento.
Era um camalhaço grosso, dessa vez com fotos coloridas, com mil seções sobre coisas bobas muito mais interessantes que as seriedades da semana.
Eu ia direto pra crônica do Verissimo.
Vou confessar como fã: às vezes, o texto era mais ou menos. Só alguma coisa inusitada da política com uma observação marota, às vezes alguma história sobre o futebol do momento, às vezes até alguma coisa mais séria.
Não era o gênio incomparável das coletâneas, mas ele estava sempre ali, mostrando que olhou o mundo naquela semana e pensou um pouco a respeito - sem expectativa de criar nada brilhante.
Ainda assim, uma delícia de ler. Vê-se que o homem era gênio na consistência também.
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Calmo, sem falar muito e de vez em quando fazendo o comentário mais engraçado que alguém poderia imaginar. Ele era o espertinho da roda e a roda era o Brasil todo.
Acho que foi essa combinação de despretensão com a ocasional genialidade que o tornou símbolo de prazer na leitura pra tantas pessoas.
Veríssimo, você me fez gostar de ler e sonhar escrever. Isso só me trouxe frustração e sofrimento, mas eu sou profundamente grato.
Você foi o Luis Fernando Veríssimo dos cronistas.
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