Pular para o conteúdo principal

Balada da Arrasada

 Precisamos fazer uma distinção muito importante. Doido é doido, louco é louco, e um é muito diferente do outro.


O louco é o maluco, esses estão na mesma categoria. Eles tem transtorno, eles tem diagnóstico e eles tem tratamento. Os loucos merecem respeito e esse texto não é sobre eles.

Agora, o doido é outra história. O doido é aquela pessoa que, em posse de plenas faculdades mentais, toma as decisões mais estapafúrdias possíveis: larga relacionamentos estáveis em busca de emoção, puxa briga com quem discorda dela, torce pro Paraná Clube...


Inclusive acho que uma pessoa pode pertencer às duas equipes. Eu, por exemplo, sou um pouco louco (porque tenho laudo), mas também sou doido (acredito na melhora do humanidade pela educação).


--


O único tipo de texto que eu não enrolo pra escrever é obituário. É impressionante como a morte me motiva.

Dessa vez quem vestiu o paletó de MDF foi a Angela Ro Ro.

Essa sim, um belo exemplar de doida. 


Eu fico triste por ela, sim, mas fico triste porque parece que todas as garrafas dessa excelente safra de desvairados que tivemos estão acabando. Foi Ozzy, foi Rita Lee, foi a rainha Elizabeth II... 


Quem vai redimir os doidos?

Quem temos na categoria hoje, a Luísa Sonza? Concedo que ela tem um potencial OK pra quebrar um quarto de hotel e ser presa por tentar urinar no segurança, mas ela faria isso tudo de um jeito muito... estético. 


A doideira real é mais sujinha. 

Gosto mais quando é gente com talento e sem muito apoio, que tá no jogo porque não ganhou abraço na infância e precisa provar algo pra alguém. Excelente pra arte, melhor ainda pra página policial. 

É lindo quando as seções do jornal conversam. Precisamos de artistas que construam pontes.


--


Ro Ro era, também, uma maravilhosa sapatão, de um jeito que não se faz mais hoje. Eu não escreveria este texto com ela viva, porque eu sei que ela bateria em mim. 

Aliás, a velha safra de viados também era excelente. Caio Fernando Abreu, embotado. Clodovil, intragável. Cazuza, insuportável.

Todos ótimos.


Nós tínhamos uma aura muito mais charmosa quando espalhávamos doença. Pena que morríamos.


--


Outro charme nos doidos boomers que estão morrendo por agora é que são pessoas que não precisaram desenvolver demência na terceira idade. Todos já tinham descolado da realidade muito antes. Que sacada ótima, envelhecer proativamente!


--


Minha música preferida da Angela Ro Ro chama-se Balada da Arrasada. Ela conta de uma personagem que, tal como a cantora, entrega-se sem medidas no amor, e debocha das emoções dela:


"Arrasada, acabada, maltratada, torturada

Desprezada, liquidada, sem estrada pra fugir

Tenho pena da pequena que no amor foi se iludir

Tadinha dela-rá! Tadinha dela..."


Esses "Tadinha dela" são cantados com tanto deboche, tanto deboche, que só alguém que já esteve naquela sarjeta conseguiria emitir. É coisa de quem ri da própria desgraça.


Infelizmente, essa música estragou qualquer comoção que os anos finais da Angela Ro Ro pudessem me provocar. A cada notícia dela falando que estava sem dinheiro, que foi chifrada pela namorada, que não tinha onde cair morta - e era pelo menos uma dessas por mês - minha cabeça já cantarolava "Tadinha dela-rá!". 


E essa parecia ser a reação geral sobre os dramas que ela passava. Pelo talento, ainda que doida, ela certamente merecia um final mais aplaudido.


Tadinha dela...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...