Tem coisas que a gente lê e não imagina que vão repercutir na gente pelo resto da vida. Justamente por não ter antecipado isso, não faço ideia de em qual livro vi esse relato clínico que eu nunca esqueci.
Um homem, divorciado e por volta dos seus cinquenta anos, procurava um psicólogo porque estava tendo sentimentos muito estranhos para ele. Depois de muito tempo sem uma conexão afetiva, ele começou a se envolver com uma mulher que conheceu em seu trabalho.
"Você sente que está obcecado por ela?", perguntava o psicólogo, "ou que os pensamentos a respeito dessa relação estão lhe botando em perigo?"
"Não, é só uma paixão normal. Eu penso nela durante o dia, dou um sorriso bobo quando leio uma mensagem, imagino ela comigo antes de ir dormir..."
"E isso é um problema pra você?"
"Eu tenho cinquenta anos! Eu estou me sentindo como um adolescente. Eu já passei por relacionamentos que deveriam ter me ensinado a não cair nessa história mais uma vez. Eu achei que eu era maduro, e estou agindo como um adolescente bobo!"
Gostei de como o psicólogo, na sessão real ou na transcrição para uma versão mais heróica de si quando escreveu o relato, deu o xeque-mate com só três palavras:
"E isso é ruim?"
O homem ficou em silêncio.
"E o que há de errado em ser adolescente e bobo? A sensação de estar empolgado como um adolescente bobo, na prática, no momento, é ruim?"
O paciente, então, foi se dando conta aos poucos que ele não estava doente, estava apenas apaixonado, que estar apaixonado é adolescente e bobo e é bom justamente por ser dessa forma. E que, com a experiência que tinha, já sabia que paixões passam - geralmente deixando corações arrasados no lugar.
Mas naquele momento, aquele homem de cinquenta anos podia ser adolescente. E bobo. E feliz.
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A experiência de vida, principalmente pra nós, pessoas de alto ICL (índice de chifres levados), tende a nos deixar muito ressabiados quando se trata de se abrir pra uma nova possibilidade de relacionamento.
Acontece que a vida é tão escorregadia que é impossível, pelo menos de vez em quando, não praticar o esporte de fantasiar e idealizar uma pessoa. Em algum momento isso acontece e o adulto responsável larga o volante. Em seu lugar, assume o adolescente bobo.
Quando chega no consultório alguém muito assustado por se ver apaixonado depois de um tempo, a expectativa da pessoa normalmente é de receber um balde de água fria e um lindo banho de realidade, que a desperte desse feitiço.
Mas a paixão é uma viagem de cogumelos: depois de embarcar nela, a única coisa a fazer é aceitar que vai estar ali por um tempo e tentar aproveitar a viagem. Com sorte, a viagem te leva a ter algumas sacadas bacanas pra vida.
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O maior engano, na minha opinião, é achar que o cinismo serve de escudo pra alguma coisa. A paixão é justamente o antídoto do cinismo. Mesmo sem querer, batendo nas paredes e esperneando, você se obriga a torcer pelo melhor e a aceitar que uma parte de si é irracional.
O final é frequentemente trágico (como o de qualquer coisa na vida, que é trágica por natureza), mas eu nunca vi ninguém ser protegido de um sofrimento só porque foi cínico a respeito antes.
Resta aproveitar a fase de esperança obrigatória.
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O relato clínico do cinquentão adolescente terminava com ele, meses depois, arrasado pelo término do seu caso com a colega de trabalho.
Se disse arrependido de ter se permitido empolgar e jurou não fazer mais isso na vida. Três meses depois, apaixonou-se novamente.
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