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Simpatia


Se você pudesse ver meu rosto agora, ia ver um sorriso. As sobrancelhas levemente levantadas, o rosto um pouquinho inclinado, a cabeça balançando.

Isso sou eu sendo simpático. 

Deu pra reparar?


É triste, mas eu precisei aprender a ser simpático. No interior do Paraná, onde eu nasci, sorrir é sinal de fraqueza e simpatia é quando você não joga água fervendo na pessoa que passa na frente da sua janela.

Foi só na faculdade que eu descobri que as pessoas podem ser legais. Um dia decidi ser assim também e fui, gesto por gesto, emulando o comportamento de uma pessoa simpática.

Funcionou! Fiz amigos ali que ficaram pelo resto da vida. Infelizmente eu me acomodei e, depois dali, se eu fiz três amigos foi muito.


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Os amigos vão envelhecendo, casando, tendo filhos e os fins de semana que eram sempre lotados de coisa pra fazer, em que eu tinha que recusar convites por falta de tempo, começaram a ficar murchinhos. 

Como eu sou murchinho também, não liguei muito. Amo passar tempo sozinho. 


Mas seguindo a lógica de que eu gostaria de evitar teias de aranha nos meus genitais e que pra fazer saliência você precisa sair de casa, e que pra sair de casa é legal ter companhia, decidi fazer novos amigos. 


E, para fazer novos amigos, é necessário ser simpático.

Tem sido uma empreitada, viu?


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Eu admiro quem tem carisma natural, mas esqueço que até esse carisma tem uma dose de esforço. 

Outro dia, passei na frente de um café e um conhecido estava do lado de dentro. Ele me viu e acenou. Distraído, eu não reparei que era pra mim. Ele insistiu e acenou mais forte, insistindo no "oi" até que eu reparasse e respondesse. 


Um fofo. Eu fiquei TÃO feliz que ele não desistiu de me dar oi! Ele, que não tinha obrigação nenhuma de ser legal comigo. Eu, que mudo de corredor no supermercado pra não cumprimentar um conhecido.

Ontem era eu, sentado num café, quando vi passar  um casal de amigos. Decidi ser gentil e fui eu que acenei, balançando a mão forte como quem limpa o para-brisa de uma Kombi. 


Eles me viram, entraram no café e me deram um abraço. Gente querida.

Eu fiquei o resto do dia constrangido achando que atrapalhei a caminhada deles? Sim. Mas eles me deram o presente das suas simpatias.


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E no fim das contas o mecanismo é esse: o antipático não é assim porque odeia o próximo. 

Ele - no caso eu - só não acredita que sua presença seja agradável o suficiente para impô-la sobre outra pessoa.


O que é ridículo! Eu nunca fiquei chateado porque alguém veio me dar oi. Nunca me incomodei porque alguém parou pra me dar um braço. Normalmente esses encontros são uma felicidade imensa. Por que é tão difícil acreditar que vai ser assim pro outro também?

Mas agora isso mudou. Estou fingindo ter boa autoestima e meu novo mantra é "minha presença é um presente". 


Se eu vejo um conhecido em algum lugar, faço questão de ir dar oi. Se a pessoa me cumprimenta, eu puxo um assuntinho. 

Se um semiconhecido me olha na dúvida de cumprimentar ou não, eu meto logo um "Opa! Como você tá?" tão sorridente que é capaz de deixar a pessoa zonza.


E não me dê muito assunto, senão eu vou te levar pra tomar uma cerveja.


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Outro dia decidi que iria ser mais simpático na academia. Não sei o que eu fiz, mas só de tomar essa decisão teve gente que nunca me deu oi me cumprimentando, dando tchauzinho do outro lado da academia. Foi esquisitíssimo.

Imagina a minha cara de cu nos outros dias?


Eu nunca planejei construir uma barreira ao meu redor, mas ali estava ela. E ainda está, mas estou trabalhando nisso. 

Por isso o sorrisinho na minha cara, as sobrancelhas elevadas e a cabeça balançando. Isso sou eu sendo simpático.

Talvez as pessoas só estejam sendo legais comigo porque acham que eu tenho probleminha.

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