Uma mudança que eu não esperava na vida era a evolução espiritual dos meus amigos. Por mais que eu selecione quem eu deixo entrar na minha convivência, eu ainda me surpreendo com amigos fazendo comentários positivos. Otimistas. Esperançosos! O horror em estado puro.
Exemplo: alguém termina um namoro. Eu, no meu lugar de amigo, acolhedor e compreensivo, ofereço um "o que esse filho da puta aprontou dessa vez? vamos esfoliar o carro dele com uma pedra-pomes!". Um gesto de carinho.
Aí, como uma facada, a pessoa me responde "apenas incompatibilidades... estamos bem e eu realmente desejo que ele seja feliz!".
Se em algum momento eu acreditei que a gente é parecido com as pessoas que a gente convive, a crença caiu por terra agora. Eu não sou assim.
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O duro é que isso contamina.
Eu também tenho mudado - devagarinho, de leve - e nem tenho julgado meus amigos tanto assim.
É uma mudança parecida com a que acontece quando a resposta para uma amiga que diz que está grávida deixa de ser "Eu conheço um cara no Paraguai" e passa a ser "Parabéns!". Com o tempo a gente se habitua.
Aos poucos até me flagro tentando enxergar o melhor das pessoas também.
O que me surpreendeu é que a minha nova faceta de boa pessoa não foi bem aceita pelos meus amigos recém-zen. Tenho percebido que quando alguém se lamuria de algo perto de mim e a minha resposta é mais de "poxa, as coisas acontecem, mas com aceitação e persistência uma flor de lótus vai brotar da sua alma" ou alguma asneira parecida, as pessoas se frustram.
É prático ser evoluído e limpo das sombras quando elas estão terceirizadas em alguém, como uma poupança sombria que pode ser resgatada nos momentos em que essa energia é necessária.
Já entendi. Nos meus grupinhos, eu sou a voz do ódio. Honestamente? Topo. Me chamem de Odete Roitman.
Mas não se surpreendam se de vez em quando eu falar bem de alguém. Até eu tenho minhas fraquezas.
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Como em todas as coisas insuportáveis da vida, tudo acaba na necessidade de equilíbrio. Não vou dizer que não tenho gostado de ser um pouco mais molenga.
Reatar com pessoas que já me irritaram profundamente já me trouxe alguns momentos bem divertidos, inclusive.
Talvez o que a gente precise é de um tanto de maldade guardada (como um seguro, pra se proteger nos momentos de desaforo) e de um pouco de boa vontade (pra não ficar se achando melhor do que todo mundo).
Aí lá dentro de cada um cabem todas as partes a que uma pessoa tem direito: a pamonha e a malvada; o rei da escuridão e o vassalo no escurinho.
Que festa.
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